{"id":332,"date":"2018-02-09T14:01:00","date_gmt":"2018-02-09T16:01:00","guid":{"rendered":"https:\/\/crb1medalha.wordpress.com\/?page_id=332"},"modified":"2018-02-09T14:01:00","modified_gmt":"2018-02-09T16:01:00","slug":"o-professor","status":"publish","type":"page","link":"https:\/\/crb1.org.br\/mrb\/o-professor\/","title":{"rendered":"O professor"},"content":{"rendered":"<p style=\"text-align:right;\"><strong>por Sulena Pinto Bandeira<\/strong><\/p>\n<p style=\"text-align:justify;\">A primeira vez que o vi foi entrando em sala de aula para ministrar a disciplina. sobre a qual tinha total dom\u00ednio: Hist\u00f3ria do Livro e das Bibliotecas. Elegante, em sua roupa bem talhada, cheiroso, simples e imponente. Com voz grave e sotaque dif\u00edcil de identificar, pelo menos a princ\u00edpio, come\u00e7ou a explanar como seria. desenvolvido o programa naquele semestre.<br \/>\nA turma era irrequieta, bagunceira mesmo, como se fosse formada n\u00e3o por universit\u00e1rios, mas por adolescentes ginasianos, embora j\u00e1. houvesse ultrapassado aquele momento de vida.<br \/>\nCom forma\u00e7\u00e3o europeia, disciplinada e s\u00e9ria, fizera seus estudos b\u00e1sicos na Fran\u00e7a e na Su\u00ed\u00e7a e a turma deve t\u00ea-lo, no m\u00ednimo surpreendido. Mas ele tamb\u00e9m nos surpreendeu com seus m\u00e9todos did\u00e1ticos. N\u00e3o permitia atrasos, mas nos deixava entrar depois do in\u00edcio da aula. Chegando a bater a porta em nossa cara, e ficava verdadeiramente irritado quando percebia que n\u00e3o t\u00ednhamos o conhecimento m\u00ednimo para quem esta ali. Tolerava, aos 72 anos de idade, as brincadeiras infantis dos alunos, mas n\u00e3o o desconhecimento, a ignor\u00e2ncia e, principalmente, a falta de cultura. Isso ficou evidenciado no resultado da primeira prova. Foi uma cat\u00e1strofe geral. As notas foram baixas, vergonhosas e mexeram com os nossos brios. A rea\u00e7\u00e3o foi imediata&#8230; Come\u00e7amos a cham\u00e1-lo de \u201cVov\u00f4 como se fosse ofensa, deboche mesmo, aos m\u00e9todos entendidos at\u00e9 ali como antiquados e arbitr\u00e1rios.<br \/>\nMas ele tinha cultura, conhecimento e, sobretudo, charme. Muito Charme. Foi-nos conquistando um a um e o que era para ser ofensa virou carinho, afeto e respeito. Afinal, se como diziam \u00e0 boca pequena, havia, noutros tempos, conquistado at\u00e9 a famosa dan\u00e7arina Isadora Duncan, como poder\u00edamos ter escapado do seu encanto?<br \/>\nO mais interessante nisso tudo \u00e9 que ele incorporou o apelido de uma forma muito afetiva e se sentia nosso avozinho de verdade, enquanto n\u00f3s assim o sentiam os tamb\u00e9m. A reciprocidade do afeto foi imediata e duradoura. Tanto que, dali para frente, ele sempre foi homenageado pelas turmas que forma concluindo o curso.<br \/>\nLevou-nos \u00e0 sua casa para vernos \u201cin loco\u201d sua famosa e bem cuidada cole\u00e7\u00e3o de livros raros, dando informa\u00e7\u00f5es detalhadas sobre cada exemplar. Ali, se evidenciava o cuidado e o amor com que os tratava. Havia um espelho d&#8217;\u00e1gua no interior da casa, que amortizada os efeitos negativos do clima seco como o de Bras\u00edlia sobre o papel, e ensinou-nos, de forma pr\u00e1tica e simples, a tratar e amar os livros. Nessa visita, vasculhamos tudo, mexemos em quase todos os seus pertences e fumamos todos os cigarros colocados \u00e0 nossa disposi\u00e7\u00e3o em uma cigarreira de prata.<br \/>\nMostrou-se por inteiro, e descobrimos que, al\u00e9m de um professor excepcional, que nos mostrava a evolu\u00e7\u00e3o do mundo atrav\u00e9s dos livros, era tamb\u00e9m um amigo, de sorriso largo e barulhento e olhar bondosos. E o amamos muito mais.<br \/>\nAos poucos fomos descobrindo sua vida, era um intelectual, aberto \u00e0s novas ideias; fora participante da Semana de Arte Modernam em 1922; estruturou, junto a pessoas do porto de M\u00e1rio de Andrade e S\u00e9rgio Millet, dentre outros, o pioneiro Departamento Municipal de Cultura do estado de S\u00e3o Paulo, chefiando a divis\u00e3o de bibliotecas daquele \u00f3rg\u00e3o. Desse tempo e de sua inspira\u00e7\u00e3o surgiram a biblioteca circulante, a biblioteca infantil e uma biblioteca ambulante armada num autom\u00f3vel que, cada dia, estacionava num jardim ou parque de S\u00e3o Paulo.<br \/>\nFundou o primeiro curso de Biblioteconomia do Brasil, na Escola de Sociologia e Pol\u00edtica de S\u00e3o Paulo, desencadeando todo o desenvolvimento posterior da \u00e1rea, bem como a Associa\u00e7\u00e3o Paulista de Bibliotec\u00e1rios. Al\u00e9m disso, foi diretor da Biblioteca Nacional, da Biblioteca das Na\u00e7\u00f5es Unidas, em Nova Iorque e o primeiro professor a receber o t\u00edtulo de em\u00e9rito da Universidade de Bras\u00edlia.<br \/>\nFoi um bibliogr\u00e1fo da mais alta compet\u00eancia, tendo compilado e analisado criticamente as mais importantes obras j\u00e1 escritas no Brasil; \u00e9 tamb\u00e9m considerado um dos maiores conhecedores de obras radas sobre o Brasil, possuindo a maior cole\u00e7\u00e3o particular desse tipo de livros.<br \/>\nEra simples e magn\u00e2nimo, e tentava, repartir todo aquele conhecimento com quem dele se aproximasse e se interessasse. Declarava, enfaticamente, a necessidade dos bibliotec\u00e1rios n\u00e3o serem apenas t\u00e9cnicos, mas principalmente cultos, pois \u201ca profiss\u00e3o exige um certo lastro de conhecimento para todos aqueles aqueles que trabalham com a cultura e tentam encaminhar outras pessoas\u201d.<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>por Sulena Pinto Bandeira A primeira vez que o vi foi entrando em sala de aula para ministrar a disciplina. sobre a qual tinha total dom\u00ednio: Hist\u00f3ria do Livro e das Bibliotecas. Elegante, em sua roupa bem talhada, cheiroso, simples e imponente. 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