{"id":422,"date":"2013-04-19T02:08:27","date_gmt":"2013-04-19T05:08:27","guid":{"rendered":"https:\/\/novocrb1.ultramidia.com.br\/a-ultima-entrevista-de-graciliano-ramos\/"},"modified":"2013-04-19T02:08:27","modified_gmt":"2013-04-19T05:08:27","slug":"a-ultima-entrevista-de-graciliano-ramos","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/crb1.org.br\/site\/2013\/04\/a-ultima-entrevista-de-graciliano-ramos\/","title":{"rendered":"A \u00faltima entrevista de Graciliano Ramos"},"content":{"rendered":"<p><strong>Numa manh\u00e3 de dezembro de 1948, dez anos ap\u00f3s a publica\u00e7\u00e3o de \u201cVidas Secas\u201d, Graciliano Ramos se confessa ao jornalista e escritor Homero Senna, em sua \u00faltima longa entrevista<\/strong><\/p>\n<p><img fetchpriority=\"high\" decoding=\"async\" src=\"https:\/\/lh3.googleusercontent.com\/-nW3fg7b5Fdc\/UWw6gZ5twEI\/AAAAAAAABr0\/sMPahTv1q98\/s512\/Graciliano%2520Ramos.jpg\" width=\"276\" height=\"356\" style=\"margin: 3px 5px; float: left;\" \/>Principio por pedir a Graciliano Ramos que me diga alguma coisa sobre os come\u00e7os de sua vida, no interior de Alagoas, na cidade de Quebrangulo (n\u00e3o Quebr\u00e2ngulo, como geralmente se diz), onde nasceu. \u201cMas isso tudo est\u00e1 contado em \u2018Inf\u00e2ncia\u2019. Valeria a pena repetir?\u201d E como eu dissesse que sim, resumiu: \u201cDe minha cidade natal n\u00e3o guardo a menor lembran\u00e7a, pois sa\u00ed de l\u00e1 com um ano. Criei-me em Bu\u00edque, zona de ind\u00fastria pastoril, no interior de Pernambuco, para onde, a conselho de minha av\u00f3, meu pai se transferiu com a fam\u00edlia. Em Bu\u00edque morei alguns anos e muitos fatos desse tempo est\u00e3o contados no meu livro de mem\u00f3rias\u201d.<\/p>\n<p>Abro o volume, para conferir, e, entre outras coisas, l\u00e1 encontro este perfil psicol\u00f3gico do velho Ramos, tra\u00e7ado pelo filho: \u201cTinha imagina\u00e7\u00e3o fraca e era bastante incr\u00e9dulo. Aborrecia os ateus, mas s\u00f3 acreditava nas contas correntes e nas faturas. Desconfiava dos livros, que papel aguenta muita lorota, e negou obstinadamente os aeroplanos. Em 1934 considerava-os duvidosos\u201d.<\/p>\n<p>  <!--more-->  <\/p>\n<p>\u00a0<\/p>\n<p>De quem o romancista teria herdado, ent\u00e3o, o gosto pela literatura? Talvez do av\u00f4 paterno,\u00a0 cujo retrato desbotado costumava admirar no \u00e1lbum que se guardava no ba\u00fa, e de quem admite que tenha recebido em legado \u201ca voca\u00e7\u00e3o absurda para as coisas in\u00fateis\u201d. De sua m\u00e3e, o esp\u00edrito infantil recolheu esta impress\u00e3o: \u201cUma senhora enfezada, agressiva, ranzinza, sempre a mexer-se, v\u00e1rias bossas na cabe\u00e7a mal protegida por um cabelinho ralo, boca m\u00e1, olhos maus que em momentos de c\u00f3lera se inflamavam com um brilho de loucura\u201d, ente dif\u00edcil que na harmonia conjugal \u201cse amaciava, arredondava as arestas, afrouxava os dedos que batiam no cocuruto, dobrados, e tinham a dureza de martelos\u201d.<\/p>\n<p>De Bu\u00edque, onde o romancista frequentou a primeira escola, experimentou os primeiros des\u00e2nimos diante dos livros did\u00e1ticos do Bar\u00e3o de Maca\u00fabas e viveu algumas das inesquec\u00edveis aventuras de sua meninice, a fam\u00edlia mudou-se para Vi\u00e7osa, n\u00e3o a de Minas, terra do presidente Bernardes, mas a a\u00e7ucareira do interior de Alagoas. O que foi a extensa caminhada, de dezenas de l\u00e9guas, desde os campos ralos, povoados de xiquexiques e mandacarus, at\u00e9 uma nova paisagem, de vegeta\u00e7\u00e3o densa e muito verde, longa viagem feita em lombo de animal, est\u00e1 contada numa das melhores p\u00e1ginas de \u201cInf\u00e2ncia\u201d.<\/p>\n<p>De Vi\u00e7osa, Graciliano passou a Macei\u00f3, onde frequentou um col\u00e9gio mau; voltou e, aos 18 anos, foi morar em Palmeira dos \u00cdndios, no interior do Estado. Em Palmeira dos \u00cdndios chegaria a prefeito, e foi gra\u00e7as a dois relat\u00f3rios que escreveu que se tornou conhecido.\u00a0 Mas n\u00e3o precipitemos os acontecimentos.<\/p>\n<p>Estamos ainda em 1914. Nesse ano realiza Graciliano sua primeira viagem ao Rio, tendo trabalhado como foca de revis\u00e3o. No \u201cCorreio da Ma\u00adnh\u00e3\u201d e no \u201cO S\u00e9culo\u201d, de Br\u00ed\u00adcio Filho, n\u00e3o passou de suplente de revisor, trabalhando apenas quando o revisor efetivo faltava. Em \u201cA Tarde\u201d, por\u00e9m, um jornal surgido naquela \u00e9poca para defender Pinheiro Ma\u00adchado, chegou a revisor efetivo. Morou em v\u00e1rias pens\u00f5es, naquele Rio dos princ\u00edpios do s\u00e9culo, que tantos cronistas j\u00e1 t\u00eam descrito. Os antigos endere\u00e7os ficaram-lhe na mem\u00f3ria, e sem qualquer esfor\u00e7o o romancista os vai citando: Largo da Lapa 110; Maranguape 11, Riachuelo 19. Todos numa zona ent\u00e3o muito pouco recomend\u00e1vel, porque bairros de meretr\u00edcio, de desordeiros e bo\u00eamios.<\/p>\n<p><strong>Nessa sua primeira viagem \u00e0 Corte procurou aproximar-se de algum escritor, fez camaradagem liter\u00e1ria?<\/strong><\/p>\n<p>Nenhuma.\u00a0 Os escritores daquele tempo eram cidad\u00e3os que, nas livrarias e nos caf\u00e9s, discutiam coloca\u00e7\u00e3o de pronomes e discorriam sobre Taine. Machado e Euclides j\u00e1 haviam morrido, e os anos de 1914 e 1915, em que estive no Rio, assinalam, na literatura brasileira, uma \u00e9poca cinzenta e an\u00f3dina, de que \u00e9 bem representativo um tipo como Os\u00f3rio Duque Estrada, que ent\u00e3o pontificava.<\/p>\n<p><strong>Ficou aqui at\u00e9 quando?<\/strong><\/p>\n<p>At\u00e9 1915. Depois de curta e nada sedutora perman\u00eancia na capital, achei melhor voltar para Palmeira dos \u00cdndios, onde j\u00e1 havia deixado um caso sentimental e onde minha fam\u00edlia estava toda sendo dizimada pela peste bub\u00f4nica. Num s\u00f3 dia perdi dois irm\u00e3os. Alarmado, e tamb\u00e9m desgostoso com a vida que levava, tratei de voltar para Alagoas. Em outubro de 1915 casei-me e estabeleci-me com loja de fazendas em Palmeira dos \u00cdndios. A mesma loja que fora de meu pai.<\/p>\n<p><strong>Nessa ocasi\u00e3o j\u00e1 tinha preocupa\u00e7\u00f5es liter\u00e1rias?<\/strong><\/p>\n<p>Lia muito e escrevia coisas que inutilizava ou publicava com pseud\u00f4nimos.<\/p>\n<p><strong>Quer revelar alguns desses pseud\u00f4nimos?<\/strong><\/p>\n<p>Voc\u00ea \u00e9 besta.<\/p>\n<p><strong>Fazia versos?<\/strong><\/p>\n<p>Aprendi isso, para chegar \u00e0 prosa, que sempre achei muito dif\u00edcil. Tendo vivido quinze anos completamente isolado sem visitar ningu\u00e9m, pois nem as visitas recebidas por ocasi\u00e3o da morte de minha mulher eu paguei, tive tempo bastante para leituras. Depois da Re\u00advolu\u00e7\u00e3o Russa, passei a assinar v\u00e1rios jornais do Rio. Desse modo me mantinha mais ou menos informado, e os livros, pedidos pelos cat\u00e1logos, iam-me do Alves e do Garnier, e principalmente de Paris, por interm\u00e9dio do Mercure de France.<\/p>\n<p><strong>Ent\u00e3o, se procurava manter-se t\u00e3o bem informado a respeito do que se passava no Rio e no resto do mundo, deve ter acompanhado, l\u00e1 de Palmeira dos \u00cdndios, o movimento modernista?<\/strong><\/p>\n<p>Claro que acompanhei. J\u00e1 n\u00e3o lhe disse que assinava jornais?<\/p>\n<p><strong>E que impress\u00e3o lhe ficou do modernismo?<\/strong><\/p>\n<p>Muito ruim. Sempre achei aquilo uma tapea\u00e7\u00e3o desonesta. Salvo rar\u00edssimas exce\u00e7\u00f5es, os modernistas brasileiros eram uns cabotinos. Enquanto outros procuravam estudar alguma coisa, ver, sentir, eles importavam Marinetti.<\/p>\n<p><strong>N\u00e3o exclui ningu\u00e9m dessa condena\u00e7\u00e3o?<\/strong><\/p>\n<p>J\u00e1 disse: salvo rar\u00edssimas exce\u00e7\u00f5es. Est\u00e1 visto que excluo Ban\u00addeira, por exemplo, que ali\u00e1s n\u00e3o \u00e9 propriamente modernista. Fez sonetos, foi parnasiano. E o \u201cSolau do Desamado\u201d \u00e9 como as \u201cSex\u00adtilhas de Frei Ant\u00e3o\u201d. Por dever de of\u00edcio, pois estou organizando uma antologia de contos brasileiros, antologia que rola h\u00e1 mais de tr\u00eas anos, tive de reler toda a obra de um dos pr\u00f3ceres do modernismo. Achei dois contos de cinco ou seis p\u00e1ginas cada um. E pergunto: isso justifica uma gl\u00f3ria liter\u00e1ria?<\/p>\n<p><strong>(Franze a testa, det\u00e9m-se um instante, mas logo prossegue.)<\/strong><\/p>\n<p>Os modernistas brasileiros, confundindo o ambiente liter\u00e1rio do pa\u00eds com a Academia, tra\u00e7aram linhas divis\u00f3rias r\u00edgidas (mas arbitr\u00e1rias) entre o bom e o mau. E querendo destruir tudo que ficara para tr\u00e1s, condenaram, por ignor\u00e2ncia ou safadeza, muita coisa que merecia ser salva. Vendo em Coelho Neto a encarna\u00e7\u00e3o da literatura brasileira \u2014 o que era um erro \u2014 fingiram esquecer tudo quanto havia antes, e nessa condena\u00e7\u00e3o maci\u00e7a cometeram injusti\u00e7as tremendas. Nas leituras que tenho feito, para a organiza\u00e7\u00e3o da antologia a que me referi, encontrei v\u00e1rios contos, de autores propositadamente esquecidos pelos modernistas e que seriam grandes em qualquer literatura. Lembro-me de alguns: \u201cO Ratinho Tique-Taque\u201d, de Medeiros e Albu\u00adquer\u00adque; \u201cT\u00edlburi de Pra\u00e7a\u201d, de Raul Pomp\u00e9ia; \u201cS\u00f3\u201d, de\u00a0 Dom\u00edcio da Gama; \u201cCora\u00e7\u00e3o de Velho\u201d, de M\u00e1rio de Alencar; \u201cOs Brincos de Sara\u201d, de Alberto de Oliveira. Nas antologias que andam por a\u00ed essas produ\u00e7\u00f5es geralmente n\u00e3o aparecem, e de alguns dos autores citados s\u00e3o transcritos contos que n\u00e3o d\u00e3o a ideia exata do seu talento e do dom\u00ednio que tinh<\/p>\n<p>am do g\u00eanero. S\u00f3 posso atribuir isso, como j\u00e1 disse, \u00e0 desonestidade. Porque se os compararmos aos produtos dos l\u00edderes modernistas, estes se achatam completamente.<\/p>\n<p><strong>Quer dizer que n\u00e3o se considera modernista?<\/strong><\/p>\n<p>Que ideia! Enquanto os rapazes de 22 promoviam seu movimentozinho, achava-me em Palmeira dos \u00cdndios, em pleno sert\u00e3o alagoano, vendendo chita no balc\u00e3o.<\/p>\n<p><strong>E como foi que chegou a prefeito da cidade?<\/strong><\/p>\n<p>Assassinaram o meu antecessor. Escolheram-me por acaso. Fui eleito, naquele velho sistema das atas falsas, os defuntos votando (o sistema no Brasil anterior a 1930), e fiquei vinte e sete meses na prefeitura.<\/p>\n<p><strong>Consta que, como prefeito, soltava os presos para que fossem abrir estradas&#8230;<\/strong><\/p>\n<p>N\u00e3o era bem isso. Prendia os vagabundos, obrigava-os a trabalhar. E consegui fazer, no munic\u00edpio de Palmeira dos \u00cdndios, um peda\u00e7o de estrada e uma terraplenagem dif\u00edcil.<\/p>\n<p><strong>Em que ano foi isso?<\/strong><\/p>\n<p>Em 1930.<\/p>\n<p><strong>O ano do relat\u00f3rio&#8230;<\/strong><\/p>\n<p>Os relat\u00f3rios s\u00e3o dois: h\u00e1 o de 1929 e o de 30.<\/p>\n<p><strong>Relat\u00f3rios do prefeito ao governador do Estado, dando contas de sua administra\u00e7\u00e3o, n\u00e3o \u00e9?<\/strong><\/p>\n<p>Justo. Apenas, como a linguagem n\u00e3o era a habitualmente usada em trabalhos dessa natureza, e porque neles eu dava \u00e0s coisas seus verdadeiros nomes, causaram um escarc\u00e9u medonho. O primeiro teve repercuss\u00e3o que me surpreendeu. Foi comentado no Brasil inteiro. Houve jornais que o transcreveram integralmente.<\/p>\n<p><strong>E assim nasceu o escritor&#8230;<\/strong><\/p>\n<p>N\u00e3o. Nasceu antes. Mas tinha o bom senso de queimar os romances que escrevia. Queimaram-se diversos. \u201cCaet\u00e9s\u201d, infelizmente, escapou e veio \u00e0 publicidade.<\/p>\n<p><strong>Numa edi\u00e7\u00e3o Schmidt&#8230;<\/strong><\/p>\n<p>Exato. Por interm\u00e9dio de R\u00f4mulo de Castro, Schmidt, que aqui no Rio lera os meus relat\u00f3rios, pediu-me que lhe enviasse artigos para a imprensa. Como n\u00e3o me interessasse fazer carreira no jornalismo, nem construir nome liter\u00e1rio, recusei-me. Ali\u00e1s, nessa ocasi\u00e3o j\u00e1 estava de mudan\u00e7a para Macei\u00f3, pois fora nomeado diretor da Imprensa Oficial. Com a revolu\u00e7\u00e3o, quis demitir-me, mas n\u00e3o pude. E l\u00e1 fiquei at\u00e9 dezembro de 1931. N\u00e3o suportando os interventores militares que por l\u00e1 andaram, larguei o cargo e voltei para Palmeira dos \u00cdndios, onde, numa sacristia, fiz \u201cS\u00e3o Ber\u00adnardo\u201d. Estava no cap\u00edtulo 19, cap\u00edtulo que escrevi j\u00e1 com febre, quando adoeci gravemente com uma pso\u00edte e tive de ir para o hospital. Do hospital ficaram-me impress\u00f5es que tentei fixar em dois contos: \u201cPaulo\u201d e \u201cO Rel\u00f3gio do Hospital\u201d \u2014 e no \u00faltimo cap\u00edtulo de \u201cAn\u00adg\u00fas\u00adtia\u201d. No del\u00edrio, julgava-me dois, ou um corpo com duas partes: uma boa, outra ruim. E queria que salvassem a primeira e mandassem a segunda para o necrot\u00e9rio. Estava convalescendo, em janeiro de 1933, quando tive not\u00edcia da minha nomea\u00e7\u00e3o para diretor da Instru\u00e7\u00e3o P\u00fa\u00adblica. N\u00e3o acreditei.<\/p>\n<p><strong>Qual o interventor que o nomeou?<\/strong><\/p>\n<p>O capit\u00e3o Afonso de Car\u00advalho, hoje coronel.\u00a0 Foi disparate. Permaneci no cargo at\u00e9 3 de mar\u00e7o de 1936. Em 1933 Sch\u00admidt lan\u00e7ara \u201cCaet\u00e9s\u201d, que eu trazia na gaveta desde muito tempo. Naquele dia do m\u00eas de mar\u00e7o de 1936, por\u00e9m, sem qualquer explica\u00e7\u00e3o, fui preso e remetido para o Recife. onde passei dez dias incomunic\u00e1vel. Depois fui metido no por\u00e3o do \u201cManaus\u201d e vim para c\u00e1.\u00a0 Tive dez ou doze transfer\u00eancias de cadeia.<\/p>\n<p><strong>Qual o motivo da pris\u00e3o?<\/strong><\/p>\n<p>Sei l\u00e1! Talvez liga\u00e7\u00f5es com a Alian\u00e7a Nacional Libertadora, liga\u00e7\u00f5es que, no entanto, n\u00e3o existiam. De qualquer maneira, acho desnecess\u00e1rio rememorar estas coisas, porque tudo aparecer\u00e1 nas \u201cMem\u00f3rias da Pris\u00e3o\u201d, que estou compondo.<\/p>\n<p><strong>Foi assim, ent\u00e3o, que veio para o Rio?<\/strong><\/p>\n<p>Foi.\u00a0 Arrastado, preso.<\/p>\n<p><strong>Mas valeu a pena, n\u00e3o?<\/strong><\/p>\n<p>Sinceramente, n\u00e3o sei. Nun\u00adca tive planos na vida, muito menos planos de sucesso. De\u00adpois daquela experi\u00eancia da mocidade, o Rio n\u00e3o me atra\u00eda. No entanto vim, no por\u00e3o do Manaus, e aqui vivo.<\/p>\n<p><strong>(Est\u00e1vamos, portanto, diante de um antipar\u00e1. Os \u201cpar\u00e1s\u201d, na saborosa classifica\u00e7\u00e3o de Jaime Ovale, s\u00e3o \u201cesses homenzinhos terr\u00edveis que v\u00eam do Norte para vencer na capital da Rep\u00fablica; s\u00e3o habil\u00edssimos, audaciosos, din\u00e2micos e visam primeiro que tudo o sucesso material, ou a gl\u00f3ria liter\u00e1ria, ou o dom\u00ednio pol\u00edtico\u201d. Que pensaria Graciliano dessa fauna? Lan\u00e7o a pergunta e a resposta n\u00e3o tarda.)<\/strong><\/p>\n<p>Est\u00e1 claro que existe um \u201cex\u00e9rcito do Par\u00e1\u201d.\u00a0 Na maioria dos casos, por\u00e9m, os seus milicianos j\u00e1 chegam feitos do Norte. Aqui v\u00eam apenas colher os louros, ou, mais positivamente, as vantagens. E no Rio em geral definham, tornam-se mofinos. Ignoro se tamb\u00e9m sou \u201cPar\u00e1\u201d. Nunca fiz coisa que prestasse, mas ainda assim o pouco que fiz foi l\u00e1 e n\u00e3o aqui, onde a vida n\u00e3o nos deixa tempo para nada. Hoje leio apenas jornais, um ou outro ro\u00admance. De manh\u00e3 escrevo; \u00e0 tarde saio para as minhas ocupa\u00e7\u00f5es (inclusive para o \u201cpapo\u201d na livraria); \u00e0 noite trabalho.\u00a0 Onde iria achar tempo para leituras? E se n\u00e3o tivesse lido um pouco no interior, onde os dias s\u00e3o intermin\u00e1veis, seria inteiramente analfabeto.<\/p>\n<p><strong>Quer dizer que acha prefer\u00edvel, para o escritor, a vida na prov\u00edncia?<\/strong><\/p>\n<p>No Nordeste n\u00e3o podemos falar em \u201cprovincianismo\u201d, luxo dos Estados grandes: S\u00e3o Paulo, Minas, Rio Grande do Sul. N\u00f3s, do Nordeste, temos de ser \u201cmunicipais\u201d ou \u201cnacionais\u201d. E, a ter de morar em qualquer dos Estados daquela regi\u00e3o, acho prefer\u00edvel o interior \u00e0s capitais, porque estas, seus mexericos, seus grupinhos liter\u00e1rios, suas academiazinhas, seus institutos hist\u00f3ricos, s\u00e3o sempre muito ruins. J\u00e1 no interior poder\u00e1 um homem entrar em contato \u00edntimo com a terra e o povo. \u00c9, por exemplo, de onde vem a for\u00e7a de um Jos\u00e9 Lins do Rego, de uma Raquel de Queir\u00f3s, de um Jorge Amado.<\/p>\n<p><strong>Sabe que \u00e9 apontado como um dos nossos escritores modernos que melhor manejam o idioma?<\/strong><\/p>\n<p>Conversa. Talvez, se houvesse alguma verdade nisso, eu devesse muito aos caboclos do Nordeste, que falam bem. \u00c9 l\u00e1 que a l\u00edngua se conserva mais pura. Num caso de sintaxe de reg\u00eancia, por exemplo, entre a linguagem de um doutor e a do caboclo \u2014 n\u00e3o tenha d\u00favida, v\u00e1 pelo caboclo, e n\u00e3o erra. Note que me refiro ao caboclo do sert\u00e3o. O do litoral vai-se estrangeirando.<\/p>\n<p><strong>Mas n\u00e3o me venha dizer que seu aprendizado da l\u00edngua se fez apenas com os caboclos de Bu\u00edque e Palmeira dos \u00cdndios.<\/strong><\/p>\n<p>Claro que n\u00e3o. Muitas coisas n\u00e3o poderiam eles ensinar-me. Est\u00e1 visto que tive de chatear-me lendo gram\u00e1ticas. E arrepiei-me com a leitura dos frades.<\/p>\n<p><strong>Consta que voc\u00ea, como Euclides da Cunha e Monteiro Lobato, \u00e9 grande leitor de dicion\u00e1rios.<\/strong><\/p>\n<p>Consta e \u00e9 verdade. Dicio\u00adn\u00e1rio, para mim, nunca foi apenas obra de consulta. Costumo ler e estudar dicion\u00e1rios. Como escritor, sou obrigado a jogar com palavras. Logo, preciso conhecer o seu valor exato.<\/p>\n<p><strong>Acha isso uma qualidade?<\/strong><\/p>\n<p>N\u00e3o sei. O que sei \u00e9 que n\u00e3o h\u00e1 talento que resista \u00e0\u00a0 ignor\u00e2ncia da l\u00edngua.<\/p>\n<p><strong>Poderia, hoje, deixar de escrever?<\/strong><\/p>\n<p>Quem me dera poder deixar.<\/p>\n<p><strong>Sua obra de fic\u00e7\u00e3o \u00e9 autobiogr\u00e1fica?<\/strong><\/p>\n<p>N\u00e3o se lembra do que lhe disse a respeito do del\u00edrio no hospital? Nunca pude sair de mim mesmo. S\u00f3 posso escrever o que sou. E se os personagens se comportarem de modos diferente, \u00e9 porque n\u00e3o sou um s\u00f3. Em determinadas condi\u00e7\u00f5es, procederia como esta ou aquela das mi\u00adnhas personagens.<\/p>\n<p><strong>J\u00e1 se pode viver, no Brasil, da profiss\u00e3o de escritor?<\/strong><\/p>\n<p>N\u00e3o creio. A \u00faltima edi\u00e7\u00e3o de minhas obras rendeu-me 50 contos. Da edi\u00e7\u00e3o americana de \u201cAng\u00fastia\u201d, recebi 10 contos apenas. Tenho tamb\u00e9m tr\u00eas livros traduzidos para o espanhol. Mas os neg\u00f3cios na Argentina e no Uruguai andaram<br \/>\nmal. Como n\u00e3o tenho o h\u00e1bito de frequentar os suplementos e as revistas ilustradas, a literatura me rende pouco.<\/p>\n<p><strong>Que outras atividades exerce?<\/strong><\/p>\n<p>Trabalho no \u201cCorreio da Manh\u00e3\u201d e sou inspetor de ensino secund\u00e1rio no gin\u00e1sio S\u00e3o Bento.<\/p>\n<p><strong>Gosta do emprego que tem?<\/strong><\/p>\n<p>\u00c9-me indiferente. Trata-se de uma sinecura como outra qualquer. Em todo caso, nunca tive uma falta nem tirei licen\u00e7a.<\/p>\n<p><strong>E no \u201cCorreio da Manh\u00e3\u201d, qual o seu servi\u00e7o?<\/strong><\/p>\n<p>Corrijo a gram\u00e1tica dos rep\u00f3rteres e noticiaristas.<\/p>\n<p><strong>Gosta de jornalismo?<\/strong><\/p>\n<p>N\u00e3o.\u00a0 Nem me considero jornalista.<\/p>\n<p><strong>Com essa vida de jornal, naturalmente dorme tarde.<\/strong><\/p>\n<p>\u00c0 uma hora. E me levanto \u00e0s sete.<\/p>\n<p><strong>Nos seus livros trabalha, portanto, apenas de manh\u00e3<\/strong>.<\/p>\n<p>Exato.\u00a0 At\u00e9 \u00e0s onze, mais ou menos.<\/p>\n<p><strong>E para trabalhar, exige um bom ambiente ou n\u00e3o liga a isso?<\/strong><\/p>\n<p>Trabalho em qualquer parte. \u201cAng\u00fastia\u201d foi escrito em pal\u00e1cio, quando eu era diretor da Instru\u00e7\u00e3o P\u00fablica de Alagoas. \u201cS\u00e3o Ber\u00adnardo\u201d, em p\u00e9ssimas condi\u00e7\u00f5es, numa igreja. Qualquer canto me serve. Mas disponho, hoje, em casa, de uma confort\u00e1vel sala de trabalho: isso que os burgueses costumam chamar \u201cescrit\u00f3rio\u201d.<\/p>\n<p><strong>Gosta da casa onde mora?<\/strong><\/p>\n<p>Em qualquer lugar estou bem. Dei-me bem na cadeia. Tenho at\u00e9 saudades da Col\u00f4nia Correcional.\u00a0 Deixei l\u00e1 bons amigos.<\/p>\n<p><strong>(Casado duas vezes, Graciliano tem seis filhos e duas netas. Pergunto-lhe se costuma ajudar a mulher em casa, e ele se espanta.)<\/strong><\/p>\n<p>J\u00e1 fa\u00e7o muito em pagar as despesas. Ali\u00e1s, tenho horror a compras. E quando ou\u00e7o o telefone, tranco-me.<\/p>\n<p><strong>Aos domingos, o que costuma fazer?<\/strong><\/p>\n<p>Em geral escrevo pela manh\u00e3 e \u00e0 tarde durmo.<\/p>\n<p><strong>(O autor de \u201cVidas Secas\u201d n\u00e3o faz visitas, n\u00e3o vai a concertos nem a confer\u00eancias e n\u00e3o gosta de m\u00fasica. Tem, entretanto, um velho h\u00e1bito: vai diariamente \u00e0 Livraria Jos\u00e9 Olympio, na Rua do Ouvidor, e fica l\u00e1 v\u00e1rias horas, num banco que j\u00e1 \u00e9 quase propriedade sua, localizado no fundo da loja.)<\/strong><\/p>\n<p>Muitas vezes vou l\u00e1 dormir. Mas aparecem amigos, conhecidos, e toca-se a conversar.<\/p>\n<p><strong>(Em virtude desse h\u00e1bito, muita gente pensa que Graciliano d\u00e1 a vida por um \u201cpapo\u201d. Ele, por\u00e9m, desfaz-me essa impress\u00e3o.)<\/strong><\/p>\n<p>Quase sempre converso for\u00e7ado, porque chegam pessoas. Mas na verdade muitos dias preferiria ficar quieto, sem trocar palavra. Tamb\u00e9m \u00e9 fato que l\u00e1 aparecem bons amigos, desses que a gente rev\u00ea com prazer.<\/p>\n<p><strong>(Como Manuel Bandeira, Graciliano recebe in\u00fameros originais, para ler e dar opini\u00e3o. A Bandeira dirigem-se sobretudo os jovens poetas ainda incertos quanto \u00e0 pr\u00f3pria voca\u00e7\u00e3o. E os que se iniciam na prosa, geralmente procuram mestre Graciliano. Este, assim, tem sempre uma quantidade enorme de originais para ler.)<\/strong><\/p>\n<p>\u00c9 ma\u00e7ada. Recebo dezenas de originais. S\u00e3o principiantes, geralmente dos Estados, que desejam, \u00e9 claro, alguns elogios. J\u00e1 me aconteceu receber, na mesma semana, originais do Piau\u00ed e de Goi\u00e1s. Eu devia fazer como Jos\u00e9 Lins: afirmar, sem leitura, que tudo \u00e9 magn\u00edfico.<\/p>\n<p><strong>(Os escritores jovens do Brasil, que dos mais distantes Estados remetem originais para Graciliano Ramos, em busca de uma opini\u00e3o, e nem sempre recebem resposta, ou a resposta que esperavam, podem, entretanto, considerar-se vingados: na pr\u00f3pria casa do romancista surgem originais, e originais que ele tem, for\u00e7osamente, de ler, e talvez percorra com olhos mais benignos: os contos de seu filho Ricardo, de 19 anos, e de sua filha Clara, quatro anos mais mo\u00e7a que o irm\u00e3o. Ambos t\u00eam voca\u00e7\u00e3o para as letras. Ricardo, jornalista, j\u00e1 tem publicado alguma coisa, naturalmente com a chancela paterna. E, ainda que Graciliano nos afirme o contr\u00e1rio, nos diga que nenhum deles lhe pede opini\u00e3o, \u00e9 divertido imaginar o romancista, cansado de emendar o portugu\u00eas dos noticiaristas do \u201cCorreio da Manh\u00e3\u201d, e de ler originais que lhe chegam, \u00e0s dezenas, de todo o pa\u00eds, ter, em casa, de dar opini\u00e3o sobre os trabalhos dos filhos.)<\/strong><\/p>\n<p><strong>(Pergunto qual a sua impress\u00e3o dos contos de Ricardo Ramos, e ele n\u00e3o se nega a opinar.)<\/strong><\/p>\n<p>Regulares. Tem jeito e poder\u00e1 fazer coisa que preste.<\/p>\n<p><strong>E Clara?<\/strong><\/p>\n<p>\u00c9 ainda crian\u00e7a. Tem 15 anos apenas e est\u00e1 concluindo o curso secund\u00e1rio.<\/p>\n<p><strong>(Despedindo-me de Graciliano, depois da longa conversa que aqui tentei reproduzir, fa\u00e7o-lhe uma \u00faltima pergunta: Acredita na perman\u00eancia de sua obra? E sem qualquer pose, sem nada que deixasse transparecer falsa mod\u00e9stia, antes dando a impress\u00e3o de que falava com absoluta sinceridade, esse pessimista seco e amargo respondeu-me.)<\/strong><\/p>\n<p>N\u00e3o vale nada; a rigor, at\u00e9, j\u00e1 desapareceu.<\/p>\n<address>Nota: Entrevista publicada na \u201cRevista do Globo\u201d, edi\u00e7\u00e3o n\u00ba 473, em 18 de dezembro de 1996. E posteriormente no livro \u201cRep\u00fablica das Letras\u201d, de Homero Senna, editora Civiliza\u00e7\u00e3o Brasileira.<\/address>\n<p><strong>\u00a0<\/strong><\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Numa manh\u00e3 de dezembro de 1948, dez anos ap\u00f3s a publica\u00e7\u00e3o de \u201cVidas Secas\u201d, Graciliano Ramos se confessa ao jornalista e escritor Homero Senna, em sua \u00faltima longa entrevista Principio por pedir a Graciliano Ramos que me diga alguma coisa sobre os come\u00e7os de sua vida, no interior de Alagoas, na cidade de Quebrangulo (n\u00e3o [&hellip;]<\/p>\n","protected":false},"author":1,"featured_media":0,"comment_status":"open","ping_status":"open","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":{"site-sidebar-layout":"default","site-content-layout":"","ast-site-content-layout":"default","site-content-style":"default","site-sidebar-style":"default","ast-global-header-display":"","ast-banner-title-visibility":"","ast-main-header-display":"","ast-hfb-above-header-display":"","ast-hfb-below-header-display":"","ast-hfb-mobile-header-display":"","site-post-title":"","ast-breadcrumbs-content":"","ast-featured-img":"","footer-sml-layout":"","ast-disable-related-posts":"","theme-transparent-header-meta":"","adv-header-id-meta":"","stick-header-meta":"","header-above-stick-meta":"","header-main-stick-meta":"","header-below-stick-meta":"","astra-migrate-meta-layouts":"default","ast-page-background-enabled":"default","ast-page-background-meta":{"desktop":{"background-color":"","background-image":"","background-repeat":"repeat","background-position":"center center","background-size":"auto","background-attachment":"scroll","background-type":"","background-media":"","overlay-type":"","overlay-color":"","overlay-opacity":"","overlay-gradient":""},"tablet":{"background-color":"","background-image":"","background-repeat":"repeat","background-position":"center center","background-size":"auto","background-attachment":"scroll","background-type":"","background-media":"","overlay-type":"","overlay-color":"","overlay-opacity":"","overlay-gradient":""},"mobile":{"background-color":"","background-image":"","background-repeat":"repeat","background-position":"center center","background-size":"auto","background-attachment":"scroll","background-type":"","background-media":"","overlay-type":"","overlay-color":"","overlay-opacity":"","overlay-gradient":""}},"ast-content-background-meta":{"desktop":{"background-color":"var(--ast-global-color-5)","background-image":"","background-repeat":"repeat","background-position":"center center","background-size":"auto","background-attachment":"scroll","background-type":"","background-media":"","overlay-type":"","overlay-color":"","overlay-opacity":"","overlay-gradient":""},"tablet":{"background-color":"var(--ast-global-color-5)","background-image":"","background-repeat":"repeat","background-position":"center center","background-size":"auto","background-attachment":"scroll","background-type":"","background-media":"","overlay-type":"","overlay-color":"","overlay-opacity":"","overlay-gradient":""},"mobile":{"background-color":"var(--ast-global-color-5)","background-image":"","background-repeat":"repeat","background-position":"center center","background-size":"auto","background-attachment":"scroll","background-type":"","background-media":"","overlay-type":"","overlay-color":"","overlay-opacity":"","overlay-gradient":""}},"footnotes":""},"categories":[1],"tags":[],"class_list":["post-422","post","type-post","status-publish","format-standard","hentry","category-noticias"],"_links":{"self":[{"href":"https:\/\/crb1.org.br\/site\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/422","targetHints":{"allow":["GET"]}}],"collection":[{"href":"https:\/\/crb1.org.br\/site\/wp-json\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"https:\/\/crb1.org.br\/site\/wp-json\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/crb1.org.br\/site\/wp-json\/wp\/v2\/users\/1"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/crb1.org.br\/site\/wp-json\/wp\/v2\/comments?post=422"}],"version-history":[{"count":0,"href":"https:\/\/crb1.org.br\/site\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/422\/revisions"}],"wp:attachment":[{"href":"https:\/\/crb1.org.br\/site\/wp-json\/wp\/v2\/media?parent=422"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"https:\/\/crb1.org.br\/site\/wp-json\/wp\/v2\/categories?post=422"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"https:\/\/crb1.org.br\/site\/wp-json\/wp\/v2\/tags?post=422"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}