{"id":426,"date":"2013-04-19T02:59:47","date_gmt":"2013-04-19T05:59:47","guid":{"rendered":"https:\/\/novocrb1.ultramidia.com.br\/artigo-olhem-nos-olhos-das-bibliotecarias\/"},"modified":"2013-04-19T02:59:47","modified_gmt":"2013-04-19T05:59:47","slug":"artigo-olhem-nos-olhos-das-bibliotecarias","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/crb1.org.br\/site\/2013\/04\/artigo-olhem-nos-olhos-das-bibliotecarias\/","title":{"rendered":"Artigo &#8211; Olhem nos olhos das Bibliotec\u00e1rias"},"content":{"rendered":"<p>Fonte:\u00a0<a href=\"http:\/\/www.estadao.com.br\/noticias\/impresso,olhem-nos-olhos-das-bibliotecarias,733425,0.htm\" target=\"_blank\" rel=\"noopener\">Estad\u00e3o<\/a><\/p>\n<h5>Ign\u00e1cio de Loyola Brand\u00e3o &#8211; O Estado de S.Paulo<\/h5>\n<p><img fetchpriority=\"high\" decoding=\"async\" src=\"https:\/\/lh4.googleusercontent.com\/-NQ2bY8BYm1g\/UWw6RShOCXI\/AAAAAAAABqU\/pL2JxwLwyus\/s518\/Bibliotec%25C3%25A1rias%2520invis%25C3%25ADveis.jpg\" width=\"518\" height=\"318\" style=\"vertical-align: top;\" \/><\/p>\n<p>Apanhei o minissandu\u00edche triangular de p\u00e3o branco, macio, recheado com duas fatias, uma de queijo prato, outra de presunto, coloquei na boca. Desapareceram as centenas de bibliotec\u00e1rias, emudeceu o som, sumiram os gar\u00e7ons que ocupavam o hall do Masp, apagou-se o coquetel e me vi no trem da Companhia Paulista com minha m\u00e3e desamarrando as pontas do guardanapo levemente \u00famido e tirando o lanche que tanto esper\u00e1vamos, meu irm\u00e3o Luis e eu. Farnel feito com capricho. Cada sandu\u00edche envolto em papel imperme\u00e1vel que conservava o frescor do p\u00e3o. N\u00e3o existia papel de alum\u00ednio, o mundo era rudimentar e a ind\u00fastria brasileira, incipiente. Um dia algu\u00e9m h\u00e1 de escrever sobre como evolu\u00edmos nas pequenas coisas que nos trouxeram conforto. Na noite anterior, meu pai tinha chegado com o queijo, o presunto e o p\u00e3o encomendado havia uma semana na padaria do Lima. N\u00e3o existia p\u00e3o de forma industrializado nem supermercados, encomendava-se nas padarias. Minha m\u00e3e limpava a mesa, colocava a toalha e preparava os sandu\u00edches, pronta a segurar a mim e ao Luis, j\u00e1 que quer\u00edamos filar sorrateiramente uma fatia de presunto ou queijo. Era tudo contado. Gente remediada comia presunto somente em viagem ou quando adoecia.<\/p>\n<p>  <!--more-->  <\/p>\n<p>\u00a0<\/p>\n<p>Aqueles momentos voltaram durante o coquetel servido no Masp, ap\u00f3s a homenagem do Conselho Regional de Biblioteconomia a algumas pessoas que contribu\u00edram para este mundo essencial na cultura de qualquer pa\u00eds, as bibliotecas. Apanhei o meu pr\u00eamio que leva o nome de Laura Russo, a mulher que conseguiu a regulamenta\u00e7\u00e3o da profiss\u00e3o em 1962 e foi diretora da M\u00e1rio de Andrade, biblioteca \u00edcone em S\u00e3o Paulo. Na hora de agradecer, cada um tinha dois minutos, igual ao Oscar, mas, igual ao Oscar, cada um falou quanto quis, uns menos, outros mais. Lembrei as minhas bibliotecas. A primeira, a do meu pai, sempre por mim celebrada, enorme para a \u00e9poca, tratando-se de um ferrovi\u00e1rio. Nela, l\u00edamos juntos, ele e eu. A segunda, a da escola de Lourdes Prada, em Araraquara, onde fui apresentado \u00e0 cl\u00e1ssica Cole\u00e7\u00e3o de Contos de Fadas do Mundo, da Editora Vecchi, abrindo meu mundo.<\/p>\n<p>Uma vizinha, Odete Malkomes, possu\u00eda O Tesouro da Juventude completo, mantido em uma estante fechada. Odete agia como uma esp\u00e9cie de bibliotec\u00e1ria, emprestava um volume por vez, verificava as condi\u00e7\u00f5es do retorno, se o livro estava limpo, sem manchas, sem p\u00e1ginas arrancadas. Uma parente, Maria do Carmo Mendon\u00e7a, tinha toda a Cole\u00e7\u00e3o Infantil Melhoramentos (adoraria rever aquele conjunto deslumbrante de cem livros), cujo n\u00famero 1 foi O Patinho Feio. Maria do Carmo tamb\u00e9m era meio bibliotec\u00e1ria, emprestava, marcava o que emprestava, vigiava, pedia de volta numa data estipulada, sob pena de nunca mais emprestar, amea\u00e7a que me fazia tremer. Com ela aprendi a ler no prazo.<\/p>\n<p>N\u00e3o me esqueci de Marcelo Manaia, que regeu a M\u00e1rio de Andrade de Araraquara (l\u00e1 tamb\u00e9m tem uma) por anos. Quando ele chegou, havia uma norma moralista que determinava: os livros &#8220;fortes&#8221; deviam ficar trancados, emprestados somente a maiores de idade. Entre os &#8220;fortes&#8221; estavam Jorge Amado e Pittigrilli. Pois Marcelo, filho de um italiano consertador de sanfonas, simples, intuitivo, esp\u00edrito aberto, assumiu e liberou geral, entregava Jorge Amado \u00e0s mo\u00e7oilas e at\u00e9 indicava as p\u00e1ginas em que havia cenas picantes. Gera\u00e7\u00f5es inteiras leram todos os livros leg\u00edveis que ali existiam. Livros ileg\u00edveis? Sim! Quem ia ler a cole\u00e7\u00e3o da Revista dos Tribunais, imensa, em &#8220;jur\u00eddiqu\u00eas&#8221; herm\u00e9tico?<\/p>\n<p>Bibliotecas t\u00eam um cheiro especial, atmosfera pr\u00f3pria, uma luz particular. Quanto \u00e0s bibliotec\u00e1rias, identifico-as pelo olhar. Olhem nos olhos delas, logo ver\u00e3o se gostam do que fazem. Elas t\u00eam vi\u00e7o, como se dizia. Levam uma chama nos olhos quando est\u00e3o entre livros. Circulam pelos corredores entre estantes de modo desenvolto, em passos leves de dan\u00e7a. Por menor que seja a biblioteca p\u00fablica, elas t\u00eam orgulho do que fazem, conhecem o papel que desempenham. Pena que ganhem t\u00e3o pouco, lutem tanto para manter a dignidade e o sustento. Maria Cristina Barbosa de Almeida, agora \u00e0 frente da M\u00e1rio de Andrade de S\u00e3o Paulo &#8211; restaurada, refeita, revitalizada -, disse bem sobre a pen\u00faria das funcion\u00e1rias, das gratifica\u00e7\u00f5es que chegam atrasadas e em parcelas. Ela sintetizou a vida de bibliotec\u00e1rias, que trabalham por amor aos livros, \u00e0s literaturas e por n\u00f3s, autores. Diante de uma bibliotec\u00e1ria dev\u00edamos nos curvar em rever\u00eancia.<\/p>\n<p>Biblioteca, ah, bibliotecas. Encerrei semana passada em Itapeva um circuito de seis cidades, nas quais falei sobre as bibliotecas p\u00fablicas. Passei por Itanha\u00e9m, Eldorado, Ilha Comprida, Cananeia, Apia\u00ed, Itapeva. Plateias maiores e menores, no meio de livros, envolvidos pelo cheiro de papel velho e papel novo, nos reun\u00edamos em conversas informais, mostrando que literatura \u00e9 prazer, n\u00e3o uma coisa inacess\u00edvel, como querem os acad\u00eamicos. A Viagem Liter\u00e1ria que fiz pela terceira vez \u00e9 o programa que leva escritores para 70 cidades paulistas, num total de 350 eventos, com muitas falas, perguntas, fotos em celulares, cafezinhos, sucos, bolos, biscoitos e broas de milho feitas muitas vezes pelas pr\u00f3prias bibliotec\u00e1rias. Ao voltar, a caminho de S\u00e3o Paulo, vim me lembrando de uma viagem, no tempo em que a TIM levava autores pelo interior de v\u00e1rios Estados. Programa que acabou, uma pena. Certa vez, em Monte Carmelo, Minas Gerais, ao visitar a biblioteca na hora do almo\u00e7o, encontrei-a sob os cuidados de uma faxineira, que nada sabia da localiza\u00e7\u00e3o dos livros, de autores ou de quantos volumes havia. Fiquei desanimado, p\u00f4, uma faxineira? Que descaso! Arrependi-me de meu preconceito ao conversar com ela:<\/p>\n<p>&#8211; E a senhora gosta da biblioteca?<\/p>\n<p>&#8211; Adoro esta hora. Todo mundo sai para comer, fico sozinha, quietinha, n\u00e3o preciso lavar banheiros e salas. Apanho um livro, outro, acostumei a ler. \u00c9 gostoso, saio voando, esque\u00e7o o mundo. Que nunca percebam que leio os livros, se n\u00e3o me tiram daqui.<\/p>\n<p>N\u00e3o, n\u00e3o tirariam, o mundo n\u00e3o \u00e9 ruim assim.<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Fonte:\u00a0Estad\u00e3o Ign\u00e1cio de Loyola Brand\u00e3o &#8211; O Estado de S.Paulo Apanhei o minissandu\u00edche triangular de p\u00e3o branco, macio, recheado com duas fatias, uma de queijo prato, outra de presunto, coloquei na boca. Desapareceram as centenas de bibliotec\u00e1rias, emudeceu o som, sumiram os gar\u00e7ons que ocupavam o hall do Masp, apagou-se o coquetel e me vi [&hellip;]<\/p>\n","protected":false},"author":1,"featured_media":0,"comment_status":"open","ping_status":"open","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":{"site-sidebar-layout":"default","site-content-layout":"","ast-site-content-layout":"default","site-content-style":"default","site-sidebar-style":"default","ast-global-header-display":"","ast-banner-title-visibility":"","ast-main-header-display":"","ast-hfb-above-header-display":"","ast-hfb-below-header-display":"","ast-hfb-mobile-header-display":"","site-post-title":"","ast-breadcrumbs-content":"","ast-featured-img":"","footer-sml-layout":"","ast-disable-related-posts":"","theme-transparent-header-meta":"","adv-header-id-meta":"","stick-header-meta":"","header-above-stick-meta":"","header-main-stick-meta":"","header-below-stick-meta":"","astra-migrate-meta-layouts":"default","ast-page-background-enabled":"default","ast-page-background-meta":{"desktop":{"background-color":"","background-image":"","background-repeat":"repeat","background-position":"center center","background-size":"auto","background-attachment":"scroll","background-type":"","background-media":"","overlay-type":"","overlay-color":"","overlay-opacity":"","overlay-gradient":""},"tablet":{"background-color":"","background-image":"","background-repeat":"repeat","background-position":"center center","background-size":"auto","background-attachment":"scroll","background-type":"","background-media":"","overlay-type":"","overlay-color":"","overlay-opacity":"","overlay-gradient":""},"mobile":{"background-color":"","background-image":"","background-repeat":"repeat","background-position":"center center","background-size":"auto","background-attachment":"scroll","background-type":"","background-media":"","overlay-type":"","overlay-color":"","overlay-opacity":"","overlay-gradient":""}},"ast-content-background-meta":{"desktop":{"background-color":"var(--ast-global-color-5)","background-image":"","background-repeat":"repeat","background-position":"center center","background-size":"auto","background-attachment":"scroll","background-type":"","background-media":"","overlay-type":"","overlay-color":"","overlay-opacity":"","overlay-gradient":""},"tablet":{"background-color":"var(--ast-global-color-5)","background-image":"","background-repeat":"repeat","background-position":"center center","background-size":"auto","background-attachment":"scroll","background-type":"","background-media":"","overlay-type":"","overlay-color":"","overlay-opacity":"","overlay-gradient":""},"mobile":{"background-color":"var(--ast-global-color-5)","background-image":"","background-repeat":"repeat","background-position":"center center","background-size":"auto","background-attachment":"scroll","background-type":"","background-media":"","overlay-type":"","overlay-color":"","overlay-opacity":"","overlay-gradient":""}},"footnotes":""},"categories":[1],"tags":[],"class_list":["post-426","post","type-post","status-publish","format-standard","hentry","category-noticias"],"_links":{"self":[{"href":"https:\/\/crb1.org.br\/site\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/426","targetHints":{"allow":["GET"]}}],"collection":[{"href":"https:\/\/crb1.org.br\/site\/wp-json\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"https:\/\/crb1.org.br\/site\/wp-json\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/crb1.org.br\/site\/wp-json\/wp\/v2\/users\/1"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/crb1.org.br\/site\/wp-json\/wp\/v2\/comments?post=426"}],"version-history":[{"count":0,"href":"https:\/\/crb1.org.br\/site\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/426\/revisions"}],"wp:attachment":[{"href":"https:\/\/crb1.org.br\/site\/wp-json\/wp\/v2\/media?parent=426"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"https:\/\/crb1.org.br\/site\/wp-json\/wp\/v2\/categories?post=426"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"https:\/\/crb1.org.br\/site\/wp-json\/wp\/v2\/tags?post=426"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}